Filme Piripkura - 2017

 

"Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama".
(Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago)
 

Em 1492, os nativos descobriram que eram índios, descobriram que viviam na América, descobriram que estavam nus, descobriram que deviam obediência a um rei e a uma rainha de outro mundo e a um deus de outro céu, e que esse deus havia inventado a culpa e o vestido e que havia mandado que fosse queimado vivo  quem adorasse o Sol e a Lua e a terra e a chuva que molha essa terra.”

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sinopse: Dois dos três membros comprovadamente vivos da tribo Piripkura (algo como "povo borboleta", nomenclatura dada a eles pelos índios gaviões) habitam como nômades na mata. Sobrevivem carregando consigo um facão, um machado e uma tocha. A área onde vivem é cercada por madeireiros, garimpeiros e outros que ali desejam empreender o extrativismo e o desmatamento irrestrito. A floresta em que se deslocam só pode continuar protegida se houver prova de que os dois homens, Pakyî e Tamandua, ainda vivem lá.  Jair Candor, indigenista, parte em expedições na selva com outros membros da Funai para tentar encontrá-los e ajudar na preservação daquelas vidas e daquela porção de bioma . O documentário contribui para fornecer a prova de que os dois homens ainda resistem, mesmo que seu futuro seja incerto.

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O documentário Piripkura, dirigido por Renata Terra, Bruno Jorge e Mariana Oliva, foi premiado no Festival do Rio e no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã. Com uma estética crua e um roteiro que leva o espectador a embarcar sensorialmente na história, acerta ao evitar uma estrutura didática. A urgência de se pensar a preservação da mata, o respeito aos povos nativos e o cumprimento da lei estabelecida é algo que naturalmente é explicitado quando ouvimos os depoimentos e acompanhamos os deslocamentos dos protagonistas do filme.

As trajetórias de Jair Candor, de Rita, do tio e do sobrinho que vivem na mata, todas tem uma carga emotiva muito forte que, de maneiras diversas, sussurram para o público uma só palavra: resistência. O passado da tribo caçada por aqueles que querem lucrar com suas terras. O passado de Jair, Quixote da causa indigenista, cuja consciência e prontidão para a ação emergem à contrapelo de sua formação. Esses pretéritos nos levam a um presente em que aqueles parcos atores, escondidos dos palcos da grande mídia e dos top trendings das redes, literalmente lutam pela sobrevivência.

 

 

E ao observarmos essa luta, podemos nos perguntar: o que o "progresso" do Brasil fez com todos aqueles elementos que, no século XIX, os escritores Românticos usaram como tábua de salvação para forjar uma identidade nacional e justificar a nossa independência de Portugal? Por que temas como a natureza exuberante e os povos indígenas, que também inspiraram nossos modernistas na busca pelo "Brasil real", tornaram-se um empecilho? A manutenção do bioma Amazônico realmente ameaçaria o desenvolvimento do país se tivéssemos políticas sustentáveis, que empreendessem pesquisa, exploração do turismo, venda de produtos nativos e eventos artísticos baseados nas culturas amazônicas?

Infelizmente, sem políticas públicas que valorizem o que, de fato, é próprio e único em nosso país, essa discussão dificilmente avançará. As terras remotas do Brasil foram loteadas diversas vezes, desde o "descobrimento" do país. Acatando a pressão de políticos que, muitas vezes, são donos ou representam os interesses dos proprietários dessas terras, o governo federal abdica de seu papel de pensar no futuro da Amazônia e tudo o que ela representa. E, parte desse papel, é criar programas que orientem e encaminhem não apenas questões preservacionistas, mas também alternativas para os fazendeiros, industriais e trabalhadores que dependem da economia extrativista e da agricultura. Em muitos países europeus, diversas regiões ofereceram incentivos para agricultores que produzissem determinado bem, dentro de certas normas. Em Portugal, por exemplo, os pequenos viticultores da Região Demarcada do Douro tiveram preços e contratos fixados em 1995 para fornecer uva para os grandes produtores de Vinho do Porto. 

Claramente, a riqueza que se perde em cada povo extinto, e em cada bioma ameaçado é inestimável. Será que nossa história, nossa fauna e nossa flora não são mais valiosas do que madeira para fabricar móveis? Em um futuro próximo, sabemos que a indústria caminha para uma produção crescente de produtos sintéticos. Mas o bioma amazônico, dificilmente conseguiremos reproduzir em todos os seus detalhes. Então, o que ainda justifica sacrificar os bens mais preciosos e irreproduzíveis que temos em termos de natureza? Só podemos pensar em uma ganância burra e cega, que não contribui para solidificar iniciativas para uma país melhor, apenas para concentrar bens nas mãos de poucos. Muito poucos.

 

Sonhar com um Brasil cada vez mais impossível

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