Filme "Bacurau" - 2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O timing de uma obra de arte é algo curioso. Sabemos que não existe gênio solitário, que talvez não exista inovação absoluta e que tudo o que é lançado como trabalho artístico depende, em parte, da tradição, em parte, do diálogo com seu tempo. Ainda assim, algumas obras unem qualidades que as tornam referências emblemáticas de seu tempo. Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é um desses exemplos. Ainda que as ideias iniciais que delinearam sua criação tenham surgido há anos atrás, e a filmagem tenha ocorrido em 2018, uma (in)feliz coincidência fez com que o lançamento de Bacurau, já premiado em festivais internacionais como CannesLima e Munique, ocorresse justamente agora: quando um ato coordenado de grileiros e produtores rurais desonestos articularam uma ação para disparar queimadas em diversas áreas de preservação ambiental no Brasil. Com a conivência do poder público e o obscurantismo anticientificista aliado à truculência de quem busca lucro a despeito de destruir nossa biodiversidade e de desrespeitar populações locais, há uma confusão geral no Brasil do presente entre público e privado. Nada mais próximo do que ocorre na pequena vila fictícia que dá nome ao filme.

Vamos à sua sinopse: Teresa é a local que retorna em um dia importante, no qual o enterro de Carmelita (interpretada pela cirandeira Lia de Itamaracá) traz à tona os fortes elos comunitários que unem a população de Bacurau. Juntos, aqueles homens, mulheres e crianças passarão a enfrentar - além do descaso do prefeito local - problemas mais contundentes. Estes, misteriosamente, se iniciam com a passagem de dois forasteiros do sudeste, que afirmam estar de passagem em busca de uma trilha. Ao mesmo tempo, além do problema de falta de água, começam a ser assaltados pela inquietação de que algo está errado, muito mais errado do que de costume. Um disco voador paira no céu sertanejo, um caminhão-pipa surge com o tambor furado, um fazendeiro local não responde aos chamados dos amigos. Enquanto a tensão cresce, o povo que vive ali isolado tem, cada vez mais, seu senso comunitário fortalecido, compreendendo que - devido ao abandono do Estado - é dele que depende a sua sobrevivência.

A partir daí, Mendonça e Dornelles conseguiram criar uma obra comovente e eletrizante ao mesmo tempo. Um dos pontos fortes de Bacurau é a capacidade de apresentar personagens fortes e peculiares que, no entanto, não têm privilegiado o seu protagonismo. É um ritmo fascinante o que o filme cria ao passear por falas e takes que captam, de forma sucinta, o cerne de cada uma daquelas pessoas no que diz respeito ao funcionamento da trama. Só o essencial está lá, e isso permite que a coreografia dos atos, embalada por uma trilha excelente, envolva o espectador de forma visceral.

Outro aspecto louvável é a forma digna com que as personagens são apresentadas, tão longe dos estereótipos que, via de regra, vemos serem repisados quando uma obra audiovisual trata de habitantes de pequenas vilas rurais ou dos povos do norte e do nordeste do Brasil. A esperteza dos locais ganha contorno iluminador quando todos, conectados, utilizam os meios eletrônicos e a internet não para divulgar fake news, mas para ampliarem os laços presenciais e para captarem a realidade.

A convivência entre os diferentes, se não absolutamente pacata, é harmônica em sua soma: há um elemento tribal belamente evocado no enredo, seja pelo cuidado com o próximo, seja pela evocação dos conhecimentos ancestrais do canto, da dança e do manejo das ervas. A igreja está fechada, não há polícia e o prefeito Tony Jr. só se lembra do povoado para arrebanhar votos. As decisões da coletividade são tomadas a partir de discussões partilhadas, assim como a dor é vivida entre os pares. As janelas e as portas das casas não funcionam cotidianamente como barreiras, já que não há exatamente o que esconder. O vilarejo tem assassinos, prostitutas, médicos, mães de família, professores e alunos convivendo lado a lado.

Essa proximidade evocará, ao fim do filme, uma herança comum partilhada. E mostrará que, diante da divisão entre quem é e quem não é cidadão no Brasil, decidida majoritariamente por critérios econômicos, talvez só se resolva quando todos os nossos cidadãos compreenderem que têm o direito de serem tratados como iguais. 

A dimensão alegórica do filme foi ressaltada nos festivais estrangeiros, assim como algum toque de realismo mágico. Mas para nós, brasileiros, o que chama a atenção é a forma como Bacurau toca fundo em nossa chaga cada vez mais viva e incurável. O absurdo é nosso pão cotidiano, e o filme nos traz notícias de um país que sabemos enfermo. Talvez, essa capacidade cortante de deixar claro diante de nossos olhos os meandros da injustiça, do poder e do privilégio seja, realmente, o que amedronta tanto nossos poderosos. O impacto de Bacurau nos faz compreender um pouco melhor porque a arte e a educação sofrem perseguição em regimes que flertam com o totalitarismo, como o que vivemos hoje.

Assista ao trailer