Filme "Eu, Daniel Blake" - 2016

 

"Ouve-se dizer que a ciência está atualmente submetida a imperativos de rentabilidade econômica; na verdade sempre foi assim. O que é novo é que a economia venha a fazer abertamente guerra aos humanos; já não somente quanto às possibilidades da sua vida, como também às da sua sobrevivência."
(Guy Debord, Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mais recente filme do cineasta britânico Ken Loach nos faz sair do cinema com um nó na garganta. Quem já conhece seu trabalho, sabe o que esperar: personagens do povo, enfrentando as agruras de uma vida com pouco dinheiro, mas com singularidades humanas inequívocas. Assim também é "Eu, Daniel Blake". E ainda que, por vezes, o espectador já adivinhe alguns desenvolvimentos posteriores do roteiro, o filme resulta em uma obra extremamente comovente.

Vamos à sinopse: um carpinteiro com problemas cardíacos, apesar de ser aconselhado a temporariamente afastar-se de suas atividades profissionais, é considerado apto para o trabalho pelo sistema de seguridade social do Estado Britânico. Às voltas com a burocracia para conseguir reverter esse engano e receber a sua pensão temporária, o protagonista depara-se com uma jovem mãe solteira que também sofre com o atendimento a ela dispensado pelo governo. Esse é o ponto de partida para a amizade de Daniel, Katie e seus filhos. E para sabermos como lutarão pela sobrevivência a partir daí.

Para o público brasileiro, "Eu, Daniel Blake" tem o atrativo extra de nos fazer entrar em contato com algumas especificidades do sistema de amparo social britânico, ainda que dramaticamente entremos em contato justamente com a sua derrocada. Após o fim da "Era Blair", o mandato de primeiros-ministros do Partido Conservador passou a privilegiar uma agenda de "austeridade", que corta ou dificulta a obtenção de benefícios. Segundo matéria da BBC, em 2013 as economias conseguidas com esse expediente mostraram-se pífias, enquanto o seu impacto no empobrecimento da população já se fazia sentir de maneira pronunciada.

 Desde as primeiras falas, que surgem ainda quando os créditos iniciais do filme estão na tela, constrói-se para o espectador o núcleo implícito da história: após anos de trabalho e de pagamentos compulsórios de taxas e impostos que garantiriam sua sobrevivência, Daniel Blake está sozinho. O sistema de valores no qual ele foi formado e no qual acredita simplesmente não existe mais. Ao ficar incapacitado temporariamente para o trabalho, ele tenta manter sua dignidade e apelar aos seus direitos. No entanto, debate-se com uma situação na qual passa a ser visto como um fardo para a sociedade e cujo comportamento desviante precisa ser corrigido. Tudo seria mais fácil se ele humildemente compreendesse isso. Mas ele quer justiça e busca o que é seu por direito. A sua saga, porém, não fala apenas de luta. Talvez a parte mais tocante do filme seja aquela que entrelaça toda a questão política com a importância da solidariedade.

Uma das cenas mais sutis do filme, que não diz respeito à relação franca e generosa que Blake tem com seus vizinhos e conhecidos, é quando ele é obrigado a assistir a uma aula de como formatar o currículo para conseguir manter seu seguro desemprego. Diante de um grupo de pessoas absolutamente perdidas na ausência de perspectivas profissionais, o professor marca no quadro uma frase: "é preciso destacar-se da multidão". Esse recurso de alguma forma explica as dificuldades enfrentadas pelo carpinteiro. Ele se debate com um sistema cultural e político que privilegia uma ideia central: alguns devem perecer para que alguns poucos se destaquem. E os fracassados são algo a se deixar para trás sem dó nem pena.  Pior ainda, o fracasso parece ser contagioso. Olhar demoradamente, sentir empatia por alguém que sofre parece conter a ameaça de tornar esse observador, também ele, um sofredor.

A possibilidade de solidariedade fica assim interditada, a noção de cidadania se esvanece, a preocupação com o bem coletivo passa a ser considerada uma ameaça à Economia. Tudo isso se desenha no filme. E para o espectador mais inquieto, também ecoa uma pergunta que não foi feita diretamente no roteiro: a quem isso interessa?  

Assista ao trailer