FILME Chico - Artista Brasileiro (2015)

 

"E assim vai se encerrar / O conto de um cantor / Com voz do pelourinho / 
E ares de senhor/ Cantor atormentado/ Herdeiro sarará /

Do nome e do renome / De um feroz senhor de engenho / E das mandingas de um escravo/

 Que no engenho enfeitiçou Sinhá"

 

 

O meu chico X O chico do filme 

 

Não são os olhos água-marinha da minha lembrança, mas olhos safira que encaram o espectador na cena inicial de Chico – Artista Brasileiro. E por volta de duas horas depois, saio do cinema ainda pensando: o azul se intensificou ou a memória sempre desbota as coisas, pintando com suas próprias cores tudo o que guarda?

 

Na minha lembrança, as músicas de Chico Buarque se misturam a pensamentos familiares: eu lhes dou um pouco da minha história, roubando parte da sua. Creio que isso ocorre com muitos outros de seus fãs, sejam de gerações anteriores ou posteriores à minha. Isso ilumina o porquê do filme de Miguel Faria Jr. ser tão significativo. E potencialmente desafiador, pois nos provoca constantemente, ora surpreendendo com preciosidades, ora negando um olhar mais panorâmico sobre a vida e a obra do artista.

 

De certa forma, o desenho do filme vai se revelando como esboço que se dedica a registrar o movimento da carreira do compositor em mais de meio século. Evitando a rigidez do retrato, o diretor vai nos mostrando peças de mosaico que acabam desenhando um perfil.  Obviamente, encantador. E que tem vários acertos. Mas talvez a reverência ao retratado tenha se expressado de forma menos feliz quando o filme dá tanto peso à obra literária de Chico Buarque. Ao contrário de muita gente, eu gosto dos livros dele. Mas considerá-lo tão autor quanto compositor seria o mesmo que dar equivalência aos trabalhos plásticos e à poesia de Ferreira Gullar, por exemplo.

 

 

No entanto, esse procedimento de Miguel Faria Jr. é coerente com o desejo de acompanhar a narrativa do entrevistado, que é intercalada por alguns clipes feitos especialmente para o filme e por alguns depoimentos de colegas. Poucos, pois a voz de Chico se sobressai na montagem final. E é interessante que, ao refletir sobre a cena musical brasileira sem saudosismos, um dos maiores compositores da MPB em atividade se considere, sobretudo, um escritor.

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