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Instaromance é um experimento de literatura digital que busca fundir a construção autoral às potencialidades formais e características intrínsecas da plataforma Instagram.

A voz autoral, portanto, não se manifesta em fluxo contínuo como no romance impresso. Em um livro ou e-book, mesmo que a narrativa seja escrita em uma temporalidade intercalada, o leitor ocidental se depara com um rio caudaloso de palavras que devem ser lidas da esquerda para a direita, de cima para baixo. O texto, ainda que que o foco narrativo mude, parece o mesmo: letras negras sobre fundo branco, mesma fonte, diagramação dos parágrafos padronizada.

Há exceções? Sim, mas essa questão, implicitamente, já afirma essa estrutura normativa do romance escrito em parágrafos sequenciais. O leitor se dispersa, abandona e retoma a leitura a seu bel prazer? É fato, mas a cada retorno, o texto, materialmente, é o mesmo e pode ser apreendido na mesma ordem e capturado pelos mesmos gestos. Em uma rede social, porém, há mais instabilidade na mídia: um leitor que eventualmente acessou um post apenas deslizando pelo próprio feed, posteriormente, se desejar visualizar o mesmo conteúdo, precisará ter registrado qual o seu perfil de origem, e visitá-lo em busca da postagem desejada, que estará ao lado de outras tantas informações que podem modificá-lo externamente.

No que tange à sua forma, portanto, Instaromance não se ancora, necessariamente, no texto escrito. Fotos, print screens, áudios, vídeos e palavras – recursos que posts, destaques e stories do Instagram mobilizam – serão usados para tecer fios de narrativa estruturados por personagens. Essas personagens, talvez, aproximem-se mais de seu sentido teatral do que literário, porque atuarão mais no campo da performance, em um possível paralelo com aquilo que Josette Féral define como teatro performativo.

A temática abordada parte de três constantes nas redes sociais: o frisson entediante da aleatoriedade, o eterno presente obsoleto e a impulsividade da autoexposição construída.

O Instaromance não faz uma adesão acrítica às mídias sociais. Buscar as potencialidades do Instagram na área da investigação artística não neutraliza a atuação problemática das Big Techs nos campos político, econômico e social. Ainda assim, mesmo que em dimensão muito mais reduzida e equilibrada, a cadeia produtiva do livro e o mercado editorial moderno também pressupunham interferências “mundanas” na ideia, por vezes, sacralizada da arte literária. O texto dos grandes clássicos também precisou de um corpo para chegar a seus leitores, e essa materialidade implicou em questões de exclusão, poder, sustentabilidade, dinheiro e circulação. Toda mídia tem, portanto, suas mazelas e suas benesses. Então, vamos discuti-las e, mais do que isso, aproveitá-las para defender o que acreditamos e consideramos relevante.